Quase todo texto sobre tokenização no Brasil cita a sigla CVM. Antes de entender as resoluções, vale entender a instituição — porque a lógica dela explica a lógica de tudo o mais.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é uma autarquia federal, criada em 1976, que regula e fiscaliza o mercado de capitais brasileiro: o ambiente em que empresas e projetos captam dinheiro do público e em que investidores compram participações, títulos e fundos. Pense nela como o agente de trânsito desse mercado: define as regras da via, fiscaliza quem dirige e pune quem coloca os demais em risco.
O que é um "valor mobiliário"?
O conceito-chave do mundo da CVM é o valor mobiliário — em palavras simples, um investimento ofertado ao público em que o investidor entrega dinheiro esperando retorno que depende do esforço de terceiros. Ações de uma empresa, cotas de fundos, títulos de dívida ofertados publicamente: tudo isso é valor mobiliário.
A definição importa porque ela é o interruptor da regulação: se algo é valor mobiliário, a oferta dele ao público precisa seguir as regras da CVM. Não importa o formato — papel, sistema eletrônico ou token. O rótulo "digital" não desliga o interruptor.
Por que a regulação existe
É tentador ver regulação como burocracia. A história do mercado de capitais conta outra coisa: ela existe porque, sem regras, quem vende um investimento sabe muito mais do que quem compra — e essa assimetria vira abuso com regularidade estatística.
As regras da CVM atacam exatamente isso:
- Informação obrigatória: quem oferta tem que contar o que está vendendo, os riscos incluídos — não só as promessas.
- Limites e perfis: certas ofertas só podem ser feitas a certos públicos, ou até certos valores por investidor.
- Responsabilização: há um responsável identificável quando a regra é violada.
Para o investidor, isso é proteção. Para quem estrutura uma emissão séria, é algo igualmente valioso: credibilidade. Operar dentro da regra é o que separa um instrumento de investimento de uma aposta com narrativa bonita.
E o que isso tem a ver com tokens?
Tudo. Quando um token representa um valor mobiliário — uma fração de dívida, uma cota, um título —, a oferta dele segue as regras da CVM, como qualquer outra. A tokenização muda o registro do ativo, não a natureza dele. Esse é um princípio que você verá repetido em toda esta trilha, porque é o princípio que separa projetos sérios de atalhos: o trilho muda, a regra permanece.
O contrário também importa: nem todo token é valor mobiliário. Um certificado de carbono ou de energia renovável, por exemplo, é um ativo ambiental, com marco legal próprio. Cada ativo segue a regra da sua natureza — e identificar essa natureza é parte central de estruturar bem.
As duas resoluções que você vai mais ouvir
No contexto de tokenização, duas normas da CVM aparecem o tempo todo, e a trilha dedica um texto a elas:
- Resolução CVM 88 — disciplina ofertas públicas menores (até R$ 40 milhões por emissor), feitas por plataformas eletrônicas registradas, num regime simplificado. É o caminho mais direto para emissões de menor porte.
- Resolução CVM 175 — o marco dos fundos de investimento, estrutura para produtos institucionais de maior porte.
O próximo passo da trilha é a estrutura jurídica que sustenta o lastro — a SPE, o veículo por trás do token — e, na sequência, o detalhe das Resoluções 88 e 175.
Este texto é informativo e não constitui orientação jurídica.
Parte 7 de 22 · Nível: Estrutura e regulação
Aviso
A Forward Factory é uma plataforma de infraestrutura para tokenização de ativos e não presta consultoria, recomendação ou aconselhamento de investimento. As soluções aqui descritas não constituem oferta pública de valores mobiliários. Quando um token representa um valor mobiliário, ele observa a regulamentação correspondente, e a estruturação das emissões adota procedimentos de conheça-seu-cliente e prevenção à lavagem de dinheiro (KYC/AML). Eventuais ofertas observam a regulamentação aplicável da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), incluindo as Resoluções CVM nº 88 e nº 175. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros; investimentos envolvem riscos.